As sondagens eleitorais para as Europeias
Bárbara Gomes, Directora de Estudos Sectoriais da Marktest, troca algumas impressões com a Marktest.com Notícias a propósito dos resultados da sondagem que a empresa realizou para as recentes eleições para o Parlamento Europeu.
Grupo Marktest,  9 junho 2009

placeholder
Bárbara Gomes,
Directora de Estudos Sectoriais da Marktest
Marktest.com Notícias (Mcom): A sondagem da Marktest, realizada entre os dias 27 e 30 de Maio, foi a única a prever uma alteração de sentido de voto dos portugueses nas eleições europeias, colocando o PSD à frente do PS. Porque é que acha que esta foi a única sondagem que reflectiu esta tendência?

Bárbara Gomes (BG): A sondagem realizada pela Marktest reflectiu o sentido de voto dos portugueses e esta não foi a primeira vez que "acertámos", aliás temos um longo histórico de "tiros certeiros". No entanto, acho que é importante referir que, quer se trate de uma sondagem de opinião, quer se trate de um estudo de mercado com outra finalidade que não auscultar intenções de voto, a Marktest sempre imprimiu o seu cunho de rigor, transparência e qualidade, no trabalho que vem realizado ao longo de quase 30 anos. Apresentamos as fichas técnicas de cada sondagem muito detalhadas. Quem ler uma das nossas fichas técnicas, sabe exactamente o quê, como, quando e porque o fizemos. Mas não tenhamos dúvidas que na base de uma boa sondagem, está sempre um bom trabalho de recolha de informação. É fundamental.

Quanto às diferenças de valores apresentados face às restantes sondagens, poderia avançar algumas hipóteses para encontrar uma explicação para este facto: a não coincidência entre as datas de recolha entre a nossa e as restantes sondagens, a própria metodologia que adoptámos, o método de selecção da amostra e do próprio entrevistado, o tratamento dos votos expressos, enfim... Os nossos resultados são fruto da conjugação de todos estes factores, aliados a um bom trabalho de recolha de informação.

Mcom: Quer comentar os resultados da sondagem da Marktest relativamente aos resultados eleitorais obtidos? Onde se detectaram os maiores desvios e que razões podem explicar essas diferenças?

BG: Bom, em relação aos resultados da sondagem Marktest, os valores falam por si: avançámos com uma vitória do PSD com cerca de 32.5% dos votos, face aos 31.7% alcançados . Estamos a falar de uma diferença de apenas 0.8 pontos percentuais. Para o PS, a nossa projecção apontava para um valor na ordem dos 29.4% dos votos. O PS, de acordo, ainda com os resultados provisórios, ficou-se pelos 26.6%, ou seja menos 2.8 pontos percentuais. Apontámos também para um empate entre a CDU e O BE, que se veio a verificar.O maior desvio verificado foi junto do eleitorado do CDS-PP. À semelhança das outras sondagens, e falando por experiência própria, o eleitorado do CDS-PP acaba por ser uma caso paradigmático.

No entanto, gostaria de dizer o seguinte : esta sondagem, em particular, e todas as outras que realizamos, reflectem precisamente a experiência, o saber adquirido e acumulado ao longo de todos estes anos, e diria que o nosso sucesso está na credibilidade dos nossos resultados.

Mcom: A abstenção nestas eleições foi uma das mais elevadas de sempre em eleições para o Parlamento Europeu. Esse facto pode explicar as diferenças entre os resultados das várias sondagens?

BG: A abstenção é uma variável que pode condicionar as diferenças registadas entre as sondagens e os votos nas urnas. Sabe-se que em actos eleitorais com elevadas taxas de abstenção a diferença entre as sondagens e os resultados eleitorais pode ser maior.

No entanto não me parece ser esta a única explicação. Há muitas outras variáveis explicativas que podem estar na base das diferenças registadas entre as sondagens publicadas (excepto a da Marktest) e os resultados eleitorais. São variáveis que condicionam e determinam todo este processo e que podem ser determinantes no grau de precisão de uma sondagem: por exemplo o momento em que decorre a recolha de campo, as opções metodológicas inerentes a cada sondagem e obviamente a recolha da informação.

Estamos a falar de sondagens pré-eleitorais, ou seja sondagens que medem intenções de voto, num dado momento, e não comportamentos de voto, logo é expectável que as diferenças de valores entre intenções e votos declarados sejam inevitáveis. Não obstante este facto, uma boa sondagem é aquela em que esta diferença de resultados é minimizada e isso consegue-se com uma boa opção metodológica, uma boa recolha da informação. Como já referi, na base de uma boa sondagem está sempre um bom trabalho de recolha de informação.

Mcom: Em sua opinião, a elevada abstenção é um sinal de que os portugueses não vêem o Parlamento Europeu como algo que lhes diz directamente respeito, não se envolvendo por isso nas eleições? O que pode explicar este fenómeno? Foi diferente nos outros países europeus?

BG: Acho que poderemos tentar encontrar e evocar inúmeras razões para explicar o fenómeno da abstenção. Desde razões histórico-culturais, até à própria conjuntura político-económica que a Europa em particular e o mundo em geral atravessam actualmente. Se tivermos presente o valor global da abstenção nos 27 estados membros, verificamos que se trata de um fenómeno transversal a muitos países da União Europeia. Tratou-se da mais baixa participação de sempre: apenas 43% dos eleitores europeus inscritos exerceram o seu direito de voto, ou seja estamos a falar de uma abstenção na ordem dos 57%.

Em Portugal, e de acordo com os resultados ainda provisórios, estamos a falar de uma taxa de abstenção que ronda os 63%, ou seja 6% mais elevada que a média europeia. A elevada taxa de abstenção é uma tendência que se vem acentuando nos últimos 3 actos eleitorais, 1999, 2004, e agora 2009 e Portugal não foge à regra.

Obviamente que não se trata de um dado surpresa. A abstenção era uma das grandes preocupações dos responsáveis da União Europeia, que inclusivamente ao longo das duas últimas semanas fizeram vários apelos à participação dos eleitores, mas parece que nem estes apelos foram suficientes para contrariar esta tendência.

Mcom: Num ano como o presente, em que teremos ainda mais dois actos eleitorais, a Marktest vai realizar algum estudo sobre o tema? Vai lançar algum Barómetro especial sobre este assunto? Quer falar-nos desse(s) projecto(s)?

BG: À semelhança de anos anteriores, e tal como não poderia deixar de ser, a Marktest continuará a realizar sondagens políticas. Não se trata obviamente do nosso core business, mas por questões históricas a Marktest desde sempre esteve presente nesta área, inovando, adoptando novas metodologias de recolha, como foi por exemplo o tracking pool diário, aquando das últimas eleições presidenciais. Desde sempre, adoptámos uma postura de total abertura e transparência na divulgação das fichas técnicas de cada sondagem. Só com rigor, independência e o trabalho dedicado de uma equipa de profissionais é que conseguimos realizar um bom trabalho, e digamos que este é e continuará a ser o nosso objectivo: fazer sempre melhor.

Quanto a novos projectos, já estamos obviamente a preparar internamente todo o trabalho para as Eleições Autárquicas, inclusivé já apresentámos ao mercado uma solução metodológica para o efeito.

Para as Eleições Legislativas, digamos que é um trabalho contínuo e regular, já que divulgamos mensalmente as Projecções de Voto para a Assembleia da República no Barómetro Político Marktest/Semanário Económico/TSF.

Arquivo de notícias

Em Agenda ver mais