2º Prémio

Um dia sem televisão

ANA CATARINA COSTA

Por ti avisto o mundo como quem sobe a um miradouro. Transportas o meu olhar e eu alcanço o horizonte, sem sair do sofá, meu canto, meu refúgio. És a minha janela, um portal envidraçado sem adornos que me abre novas paisagens, novas vidas, novos seres. Apreendo em ti, televisão, a realidade que me dás a conhecer, mas que é uma versão. Oh, porque te limitas a uma caixa que me oculta o universo? Tratas-me como um estereotipo, trancas-me num molde, numa armadura de ferro. Mas sou incapaz de ser soldada.

És produto de competição. Lutas contra a concorrência, buscando a influência e não me serves, não. Já não me contento com suspense intercalado de publicidade e servido a frio. Busco os meus ideais para além da preferência global. Sou espectadora, e como tal espero assistir a uma realidade íntegra, sem censuras; quero assistir à verdade.

Mas tens meios muito fortes, consegues hipnotizar-me. Desenvolveste capacidades para as quais nem sempre tenho antídoto e rendo-me, cansada de uma luta diária contra uma máquina. Atravesso o écran e sinto que me colocam uma venda, esqueço-me dos problemas e sorrio com comédia ou com a felicidade de algum personagem, ou inquieto-me com momentos trágicos explorados. Inconscientemente olvido a minha realidade e folgo o meu ser a vários tipos de programas que anteriormente desconsiderava. Deparo-me com maus profissionais pagos para ocuparem determinado tempo, um tempo que é tão precioso e tão mal gasto. E eu, sob os efeitos televisivos, alheia ao meu pensamento, consumo tanta conversa de treta!

Hoje não. Não permito que se apodere da minha mente. Desvio-me daquele caminho mecanizado em direcção à televisão, recolho o indicador que se estendia para o botão. Quero descobrir o mundo a partir da verdade, interpretado por mim. Anseio sentir o momento único e irrepetível, contrariamente ao que se passa quando é gravado e reproduzido. Desejo aquilo que é só meu, desconhecido aos milhares de telespectadores, tão importante para mim! Porque, com a vastidão do mundo, é necessário encontrarmos a autenticidade! Não sabemos se não existirá um sósia noutro canto semelhante no aspecto ou no intelecto manipulado pela caixinha mágica!? Então sigo os meus instintos e sigo-me, porque se torna tão vasto o meu "eu". Fecho os olhos e sinto odores e vozes, abro-os e vejo todas as cores. Levanto-me com a brisa e ondulo na água, sou livre e enxergo a infinidade para lá das fronteiras. O cheiro a pão, a flores, a poluição, a perfumes caros, a frango assado, a eucaliptos. Reconheço as coisas pelo olfacto, algo impossível pela televisão. Ouço a minha voz. Tacteio a suavidade de uma pétala, a intensidade da chuva, o frio do metal, o calor da lareira, o fervor de um amigo... Tentem iludir-me da suposta companhia de um televisor, nada substitui uma conversa ou um silêncio recíprocos.

Para além de ser um meio de comunicação, é um meio para a falta de conversação entre as pessoas, ou pelo menos para a escassez de temas pessoais, já que os assuntos são tantas vezes a ficção. Roubas a vida que deveria ser vivida por nós e acabamos por viver a dos outros. Não quero que me mascares, quero sentir a dor se necessário, sorrir quando tiver razões para isso, controlar as minhas expressões! Deixa-me ter noção da miséria existente e não a explores, não faças um drama para eu chorar. Quero aprender as coisas por mim mesma, a frequência com que vejo imagens de terror está-me a insensibilizar e muitas mortes já é banal.

Gosto de andar entre as gentes e de ver a sua naturalidade, tão diferente da postura das figuras públicas quando estão a ser observadas por uma câmara. Têm sorrisos forçados, palavras decoradas. Não revelam ao mundo quem são, mas o que querem ser, tudo aparência. Tu transmites falsidade.

E eu aqui perdida entre a inconsciência e a consciência disso, entre o que sou e o que fazes de mim, televisão. Sei que em ti não está tudo, transmites a selecção da maioria, mas há tanta coisa além disso! Não limito o infinito e construo-me através do que descubro, a partir dos meus actos e omissões, aprendo comigo. Porque busco a autenticidade. Não sou mais audiência para a solidão.



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