Sondagens de opinião e reflexividade
Diário de Notícias, 2 Julho 2002

Reproduzimos aqui a crónica escrita pelo Presidente do Conselho de Administração da Marktest Investimentos SGPS, Luis Queirós para o Diário de Noticias





A teoria da reflexividade não é nova nem original. Eu aprendi-a com George Soros, que a aplica relativamente ao funcionamento dos mercados financeiros; mas a sua aplicação estende-se a outros domínios.

A teoria da reflexividade aplica-se nas ciências sociais para explicar que a nossa mente interage com certo tipo de fenómenos, à medida que os vai conhecendo ou procura explicá-los. Um exemplo clássico será o comportamento da bolsa quando se fazem previsões sobre a sua evolução. O conhecimento generalizado de uma informação sobre a previsível evolução do preço de uma acção pode alterar essa mesma evolução.

Muito se tem questionado sobre se a divulgação de sondagens durante as campanhas eleitorais influencia o comportamento dos eleitores. Eu acredito que a teoria da reflexividade se aplica às sondagens e que de facto estas, quando divulgadas, influenciam, e muito, o comportamento dos eleitores na chamada às urnas.

Desde os anos 30, época em que George Gallup, nos EUA, popularizou as sondagens de opinião realizadas com base em pequenas amostras, que elas não deixaram de ver a sua importância e influência crescer. Hoje, faz-se a política à volta das sondagens de opinião. Os meios de comunicação não as dispensam. Os políticos, os deputados, os cortesãos dos partidos anseiam e rebuscam contactos para alcançarem os seus resultados... Tudo isto, apesar de já em 1948 as sondagens, incluindo as de G. Gallup, terem falhado na previsão da eleição de Truman contra Dewey.

Em França, nas recentes eleições presidenciais, a verdadeira primeira volta foi a das sondagens, em que Chirac e Jospin emergiram como vencedores; depois, na segunda volta, ou seja, na primeira volta eleitoral, Le Pen ultrapassa Jospin. Foi o terramoto para os políticos, mas também foi o terramoto para as sondagens. De imediato, os institutos de sondagens foram acusados de terem sido os responsáveis pela catástrofe, por terem levado os eleitores a dispersar o seu voto ao darem como garantida a passagem à segunda volta de Chirac e Jospin.

Na realidade, não foram as sondagens que falharam, mas foi o sistema de três voltas que funcionou à merveille. Alguém duvidará de que, se as sondagens tivessem previsto a passagem de Le Pen à segunda volta, neste caso, seria Jospin a disputar a final com Chirac? Isto é, as sondagens, em França, só podiam errar na situação pré-eleitoral. Se adiantassem Jospin, passaria Le Pen; se adiantassem Le Pen, passaria Jospin. Este é o paradoxo das sondagens e resulta da lei da reflexividade.

Também em Portugal isso se tem verificado. Nas últimas eleições autárquicas, no Porto, por exemplo, a primeira volta das eleições, a das sondagens, deu claramente a vitória a Fernando Gomes; na segunda volta, a das urnas, venceu Rui Rio, que parece não ter percebido a importância da primeira volta para justificar os resultados da segunda, pois veio logo a seguir atacar e criticar as sondagens!

Num curioso estudo que nós próprios realizámos, na Marktest, em que entrevistámos as mesmas pessoas, uma semana antes e uma semana depois das eleições, chegámos a interessantes resultados, que mostramos na tabela em baixo.

Uma semana antes das eleições, Fernando Gomes era claramente ganhador, à frente de Rui Rio. A grande questão é saber por que razão 31,7 por cento dos eleitores que tinham declarado tencionar votar em Fernando Gomes, na realidade, não foram votar?


Sondagem pós-eleitoral a uma subamostra de uma sondagem pré-eleitoral
Em quem votou nas autárquicas?

. Total
(%)
Candidato indicado na sondagem pré-eleitoral
    Rui Rio F Gomes
Rui Rio 28.5 80.0 9.1
Fernando Gomes 26.3 1.3 45.7
Rui Sá 7.1 2.5 3.7
Teixeira Lopes 1.1 1.3 0.6
Não Votou 23.8 5.0 31.7
Ns/Nr 13.2 10.0 9.1

Fonte: Marktest, estudo junto de 365 eleitores entrevistados antes e depois das eleições no concelho do Porto em Dezembro, 2001


Quem parece já ter percebido o funcionamento da reflexividade é o líder do PP, Paulo Portas, que, quando confrontado com um resultado previsível de três por cento para o PP, nas legislativas de Março de 2002, disse (se não me engano, na TVI) mais ou menos isto: "Esta previsão não me preocupa; chegou o momento de os eleitores a contrariarem, nas urnas, como já aconteceu noutras ocasiões." A propósito, não deixa de ser curioso constatar que a votação no PP foi a "surpresa" das últimas eleições e que foi ao eleitorado "flutuante" que o PP foi buscar uma boa percentagem dos seus votos, como se pode deduzir do quadro seguinte:


Qual destas posições corresponde melhor à sua posição relacionada com votações em eleições: Vota sempre ou quase sempre no mesmo partido; Muda de partido conforme a sua opinião em cada acto eleitoral ?

.

VOTO EM 17 DE MARÇO

. PSD CDS/
PP
PS CDU
(PCP/
Verdes)
Bloco
Esquerda
Vota sempre ou quase sempre no mesmo partido 63.7 27.0 71.8 87.1 36.4
Muda de partido confrme a sua opinião em cada acto eleitoral 34.4 73.0 27.3 12.9 59.1
Não Sabe 1.2 0.0 1.0 0.0 0.0
Não Responde 0.8 0.0 0.0 0.0 4.5

Fonte: DN/Marktest. 806 entrevistas telefónicas realizadas entre os dias 12 e 16 de Abril 2002, junto de indivíduos com 18/+ anos do Continente


A acção de publicar uma sondagem tem efeito reflexivo sobre os eleitores e pode alterar o processo de tomada de decisão de voto de uma forma imprevisível. Mas isso não retira valor às sondagens de opinião nem deve criar limites à sua divulgação. As sondagens de opinião fazem parte integrante e indissociável dos sistemas democráticos avançados. Por isso, não podem ser banidas nem desvalorizadas. Questioná-las é questionar o próprio sistema e enfraquecê-las é enfraquecer o próprio sistema. Mais do que os políticos, os cidadãos, os eleitores saberão valorizá-las na sua justa medida e elas cumprirão, numa sociedade aberta, a sua função de diagnóstico, eventualmente falível, mas certamente indispensável.

Numa sociedade aberta, a reflexividade criará a sua própria reflexividade, como um jogo de espelhos paralelos, que, multiplicando as imagens até ao infinito, tenderá a esbater o seu próprio efeito.




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