Fundação Vox Populi mostra projetos desenvolvidos

Fundação Vox Populi mostra projetos desenvolvidos

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A Fundação Vox Populi apresentou recentemente um balanço da atividade que tem desenvolvido, motivo para uma entrevista ao seu fundador, Luís Queirós.

27 outubro 2015

Luís Queirós,
Fundador da Fundação Vox Populi
A Fundação Vox Populi apresentou no Dia Europeu de Fundações e Doadores, 1 de Outubro, um balanço da sua atividade mais recente. Ficámos a conhecer mais sobre os projetos NEPSO, Rato de Biblioteca, Cantinho das Mãos e outras atividades na área da sustentabilidade e integração que a Fundação tem desenvolvido.

Marktest.com Notícias (Mcom): Como é que surgiu esta ideia de criar uma Fundação?

Luís Queirós (LQ): A Fundação Vox Populi foi criada em abril de 2008 quando deixei de exercer funções executivas no Grupo Marktest. Era uma ideia que já me perseguia desde há muito tempo e que nasceu quando tomei contacto com o Instituto Paulo Montenegro, uma organização sem fins lucrativos criado pelo Ibope no Brasil.

Ao criar a Fundação, decidi abdicar de uma parte substancial do meu património pessoal e familiar o qual foi posto à disposição da Fundação. Mas tanto a minha mulher como os meus filhos me apoiaram com entusiasmo nesta decisão.

Mcom: Pensou logo que o objeto da Fundação se relacionasse com a procura do conhecimento e a sustentabilidade? O que o motivou a seguir esses caminhos?

LQ: Eu pretendia levar para a Fundação os conhecimentos e a experiência de muitos anos que trazia da Marktest, mas colocando o foco mais no cidadão do que no consumidor. Já conhecia alguns projetos do Instituto Paulo Montenegro, nomeadamente o NEPSO, e um estudo de monitorização da alfabetização da população brasileira, este apoiado pela Unesco. Por outro lado, em 2008, no ano da criação da Fundação, já estava muito sensibilizado para os problemas da sustentabilidade e dos limites ao crescimento, assunto que depois viria a desenvolver no "Mundo em Transição", o livro que publiquei em julho de 2013.

Mcom: Fale-nos um pouco sobre o NEPSO.

LQ: O NEPSO, sigla que deriva de Nossa Escola Pesquisa a Sua Opinião, tem como objetivo utilizar a metodologia dos estudos de opinião para propor às escolas básicas e secundárias o desenvolvimento de projetos de investigação. Em cada escola aderente, professores e alunos escolhem um tema de âmbito local, nacional ou apenas atual e, com a ajuda, formação e acompanhamento da Fundação, conduzem ao longo do ano escolar a investigação nas suas várias fases: contextualização do tema, definição dos objetivos, elaboração do questionário, definição do Universo, desenho e seleção da amostra, recolha de informação, tratamento dos dados e apresentação dos resultados.

Trata-se de projetos de investigação aplicada que permitem conhecer os instrumentos de recolha da informação e das técnicas associadas. Permitem desenvolver a capacidade de interpretação da informação e a sua análise crítica, assim como fazer a sua síntese. Ajudam também a aperfeiçoar a forma de apresentar e comunicar os resultados. Acima de tudo, os projetos do Nepso contribuem para a tomada de consciência dos temas analisados e para a mudança de atitude pró-cidadania. Não é esquecida a utilidade da informação e incentivam-se os grupos de trabalho a apresentar propostas de ações concretas para aplicação dos resultados.

Hoje, vejo no Nepso uma grande potencialidade como metodologia de aprendizagem. Cito, a este propósito, a diretora de uma escola do Norte de Portugal que um dia me disse: "Mais importante do que ensinar, é ensinar a descobrir".

Mcom: O Rato de Biblioteca também é dirigido às escolas… que trabalhos têm sido realizados neste âmbito?

LQ: Na nossa experiência do Nepso, constatámos que, quando se pede aos alunos para contextualizarem um tema, existe, por parte de muitos deles, a tentação de fazer "copy-paste" da informação recolhida, sobretudo na Internet. Encontrámos em quase todos os grupos do Nepso uma grande dificuldade em pesquisar, organizar, estruturar, sintetizar e criticar a informação.

Assim nasceu o programa Rato de Biblioteca. O objetivo é desenvolver/aprofundar com os alunos/professores ao longo de um ano letivo um projeto de pesquisa documental - normalmente conhecida por "Desk Research" - sobre um tema proposto pela Fundação Vox Populi. Os temas propostos são temas transversais e abrangentes de modo a que proporcionem o envolvimento de professores de diferentes disciplinas: História, Geografia, Ciências, Português, etc.. permitindo abordagens distintas na pesquisa dos dados. Os professores podem estudar com os alunos o tema nas diferentes vertentes, pesquisando sobre a matéria nas mais diversas fontes existentes.

No passado ano letivo, o tema foi a origem das coisas. Houve alunos que estudaram, por exemplo, a lampreia do rio Minho e outros que estudaram a origem do caulino. O conhecimento adquirido fica como uma marca na vida destes alunos e a metodologia utilizada é uma ferramenta que os vai ajudar na prossecução dos seus estudos.

Mcom: Tem a perceção do impacto que estes trabalhos têm na comunidade em que são desenvolvidos? Quer dar-nos alguns exemplos do envolvimento necessário para os realizar e do impacto final que têm na escola e comunidade mais alargada?

LQ: O feedback recebido dos professores mostra a importância destes projetos para despertar o interesse dos alunos. Cito, a propósito, o testemunho de um professor de uma escola do distrito de Braga: "O trabalho tem resultado imensamente frutífero. Deixámos de ter os alunos que tínhamos no início do ano letivo. Agora temos alunos mais conscientes, mais despertos, mais curiosos, mais amigos da escola e do conhecimento e mais preparados para abraçarem projetos universitários de sucesso..."

Em muitos casos, os alunos que participam em projetos Nepso e Rato de Biblioteca dão seguimento ao trabalho realizado. Um exemplo notável disso foi a criação, no passado dia 20 de outubro, de uma associação anti-bullying em Braga. Tudo começou com um grupo de alunos de uma turma a escolher o bullying como tema do Nepso. A determinação do professor coordenador não deixou cair o trabalho feito, que os alunos prosseguiram de várias formas - através de conferências, colóquios, sensibilização dos media. etc, - e que culminou, passados alguns anos, com a constituição da associação juvenil que conta com o envolvimento de toda a comunidade e até da autarquia. Ideia que já está a ser replicada noutras localidades.

Mcom: Quantas pessoas a Fundação já envolveu nestas ações?

LQ: Nos 6 anos de Nepso e nos três de Rato de Biblioteca já foram realizados cerca de 150 projetos envolvendo dezenas de escolas, centenas de professores e muitos milhares de alunos.

Mcom: Esta atividade da Fundação também é uma educação para a cidadania. Concorda? Ajudar os mais novos a pensar e investigar os problemas ajudará a formar cidadãos mais participativos no futuro?

LQ: Para Paulo Freire, o patrono da educação brasileira, "educar é construir, é libertar o homem do determinismo, é estimular o raciocínio, é aprimorar o senso crítico, as faculdades intelectuais, físicas e morais. Educar é produzir um homem feliz e sábio." A palavra educar deriva do latim educare, ex-ducere. Ducere tem o significado de um movimento com um sentido. As palavras "dux" e "duce" derivam dessa raiz, e outras palavras como pro-duzir, con-duzir, re-duzir, in-duzir, tra-duzir ou mesmo se-duzir estão formadas a partir do vocábulo ducere.

Ex-ducere significará, na sua etimologia, guiar alguém com um sentido (ducere), partindo de dentro dessa pessoa para o que existe fora dela (ex). Não pode, pois, haver ducere sem um sentido, da mesma forma que não pode haver educação sem objetivos e sem um guia que conduza para esses objetivos. A forma e o método de o fazer são importantes, mas o professor e o sentido são os elementos primordiais da educação. Na Fundação Vox Populi e na comunidade Nepso estamos a trabalhar para encontrar um sentido para a vida e para a Educação.

Mcom: Outro dos eixos de atuação da Fundação tem a ver com a sustentabilidade, que é um tema que o preocupa há muito… O que é que a Fundação tem feito nesta área?

LQ: O tema da sustentabilidade é o tema central da nossa civilização e por isso está presente em todas as iniciativas da Fundação. Está relacionado com a temática do crescimento e das suas consequências: a pressão demográfica e o envelhecimento das populações, a escassez de recursos - alguns finitos e não renováveis, como é caso da terra arável e dos combustíveis fósseis - e a poluição ambiental, responsável pelas alterações climáticas.

O progressivo envelhecimento da população portuguesa, que a nível da totalidade do território é muito preocupante, atinge nos concelhos da Beira Interior a sua mais acutilante expressão. Esse envelhecimento tem-se traduzido numa diminuição acentuada da população desses concelhos ao longo das últimas décadas, e caracteriza-se por uma alteração significativa da sua estrutura etária. Ao invés do que acontece nos territórios rejuvenescidos, nos concelhos do Interior a pirâmide de idades engrossa de baixo para cima. É um fenómeno muito preocupante que não tem tido a devida atenção dos governantes e da sociedade em geral.

Contribuir de alguma forma para contrariar este fenómeno foi a razão para a Fundação instituir um prémio - O prémio Ribacôa, que já vai na sexta edição, cujo objetivo e contribuir para fixar pessoas numa região muito deprimida da Beira Interior.

Mcom: O projeto mais recente da Fundação é o Cantinho das Mãos. O que esteve na base da ideia de criar um espaço ligado às manualidades? Estamos a deixar de saber usar as mãos?

LQ: O "Cantinho das Mãos" foi uma ideia da minha mulher, Paula. É um espaço de convívio, de partilha de saberes e de aprendizagens, onde se aprende a gostar, a valorizar e desenvolver artes e técnicas de trabalho manual, tendo como principio a sustentabilidade e o respeito pela utilização dos recursos naturais e pelas questões ambientais. Está aberto a todos os que queiram transmitir e partilhar saberes e a todos os que queiram aprofundar os seus conhecimentos sobre qualquer assunto ligado às artes e técnicas de trabalho manual, através de workshops, cursos, palestras ou simplesmente através de momentos de convívio.

Muitos são os mitos sobre as dificuldades em realizar certos trabalhos manuais, tais como: rendas de bilros, bordados de Castelo Branco e mesmo tricot. Mas o segredo está em começar, em experimentar e desmistificar e descobrir que afinal não é difícil e que até é divertido e relaxante.

Os participantes não têm que pagar por participar nestas atividades. A Fundação Vox Populi, que não tem fins lucrativos, disponibiliza o espaço e organiza as atividades. Poderá haver lugar a pagamento partilhado quando for necessário recorrer a professores ou instrutores ou adquirir materiais para essas atividades.

Regularmente, ao longo do ano letivo e nas férias, partilhamos e desenvolvemos em conjunto com crianças e jovens diversas atividades sobre temas tão variados como a lã, o origami, a pintura, a fotografia, a culinária, a música… Enfim, incentivamos a criatividade, desenvolvemos o convívio, partilhamos saberes, tudo no âmbito da educação para a sustentabilidade.

Mcom: A Maria Clara é uma das "estrelas" deste projeto. Fale-nos sobre ela…

LQ: A história da Maria Clara é muito curiosa. O meu filho Pedro e um amigo chegaram ao Nepal no dia anterior ao terramoto que destruiu o país. Decidiram ficar e ajudar e deram início ao que hoje é a missão "Obrigado Portugal, nós também somos Nepal". Começaram a contar a sua experiência no Facebook e um dia receberam uns desenhos de uma menina de uma escola de Vizela, a Maria Clara, que enviava donativos para ajudar os meninos do Nepal. A minha mulher, Paula, decidiu dar vida ao desenho da Maria Clara criando um boneco de pano nas atividades do Cantinho das Mãos. Entretanto, a professora da Maria Clara pediu-nos para também dar vida aos desenhos dos outros meninos da sala da Maria Clara que também queriam ajudar os meninos do Nepal. E assim ganharam vida pelas mãos do Cantinho das Mãos 17 bonecos desenhados por meninos de 4 e 5 anos (ver fotos).

As fotos seguintes mostram a exposição de alguns trabalhos realizados no Cantinho das Mãos assim como a coleção dos bonecos realizados para os Meninos do Nepal.

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