1o Prémio

Ser jovem é ser mais alto

GUIDA VEIGA

Os traços de civilização dissolvem-se na imensidão do manto verde que invade a minha janela.

Lá ao longe ficou a brisa que secou os longos cabelos salgados. Os grãos de areia atropelados pelos pés deambulantes. O mar de água que atenuou o ardor do meu corpo queimado.

Sobre essa aldeia piscatória invadida pelos de fora, construí um castelo de sonhos e objectivos. Foi lá que sepultei as memórias de um ano sozinho e vazio, como um náufrago na praia. Fechei portas, abri janelas. Apaguei atalhos, desenhei caminhos. Despertei. Nasci pela primeira vez.

Agora tudo me parece mais nítido e nem o balançar do carro de ferro incomoda a estabilidade que me embala.

No horizonte, o verde parece cinzento e o cinzento transforma-se subitamente em verde.

O comboio abranda e eu sei que isto vai ficar para sempre.

Assimilo o infinito do céu que não é azul e os meus olhos deixam-se encadear pelos blocos de cimento cor de malmequer. A fugacidade destas estrelas assombrosamente humanas corrige o pensamento anterior e alerta-me de que nada é eterno. Já nem o título do livro que a inspiração fechou me convence de que algo seja para sempre.

A vida inteira nesta velocidade ágil que me impede de colher os frutos, preservar os tesouros, conservar as memórias, manter relações.

No apeadeiro, um bando de humanos aguarda os que ficam, acena a mão aos que sobem.

O silêncio que acompanha a previsível paragem perturba o meu raciocínio e a urgência do abandono assola minh'alma.

Talvez também eu deva abandonar o pedaço de ferro que me devolve à montanha.

A vida inteira para quê? Para a avistar deste lado cómodo da janela?

Não! A vida inteira para saltar da janela, elevar castelos, preservar memórias, alimentar relações. A vida inteira para ser o fruto do universo verde onde os malmequeres se multiplicam.

Sou semente na montanha da metáfora para a morte, que é a vida. O que me separa do verde é o tempo e a liberdade.

Sou jovem. E livre como uma semente, procuro a minha essência de sol a sol. Às vezes caem pedaços de terra sobre o meu caminho, vindos de algures, não sei donde.

Uns são encosto donde as respostas brotam quando o violência do vento esgota a vontade da procura, outros são autênticos pés demolidores que me enterram sobre doutrinas e dizimam a busca do "todo". Todavia, são as provações e os obstáculos que me germinam; é cada pedaço de terra, cada rajada de vento que me conduz à revelação final.

Esta é a minha Primavera, o meu momento de sondar, cavar e lavrar a terra rica e fértil que é o mundo. É a altura de esmagar o cimento que me limita e que separa a vida em rectângulos... e voar! É premente a ilusão! É urgente deixar o cais seguro e a paz tolhida e partir em busca da verdade, contrariar os ventos dementes e pela verdade remar na vida da mente. Num vestir leve e perene de conhecimentos e informações, preparo agora o florir da minha personalidade.

A juventude é pois este estado de latência, a estação fugaz na estrada para o mundo dos mais velhos, daqueles que descobrimos não terem todas as respostas.

Compete-nos a nós, sementes desta terra, conservar o nosso coração aberto à verdade para que quando o sol do Verão resplandecer, nos transformemos em frutos maduros capazes de incendiar a floresta da vida com a nossa essência e a nossa sede de justiça. Não menosprezemos esta fase de liberdade! Não subestimemos o poder da nossa convergência na permanente busca do sonho!

Como jovem que sou, quero mudar o mundo. Esta terra tem sido transformada por um conjunto de (des)valores que alguns frutos daninhos da sociedade evocam.

Porém, se as sementes que andam por esses campos despidos e esquecidos acreditarem na mudança, a sabedoria poderá mais do que a pretensão e cada semente queimará o fruto adulto que impede a realização do seu mundo de paz, amor e justiça. Porque os mundos podem ser mudados, ainda que em cada pedaço de terra, na mente de cada jovem.

Há que continuar a cavar até descobrirmos o tesouro da sabedoria que está em toda a parte, em cada uma das sementes primaveris. Procurar é ser livre, sem dogmas, sem doutrinas, sem valores instituídos.

Qualquer que seja a montanha, o que importa é largar o apeadeiro e deixarmo-nos guiar pelo castelo que antes era de sonhos e objectivos e que no fim será o nosso porto seguro.

Confundindo o verde com o cinzento, ocupando um ou outro malmequer, próxima da meta cada semente será um fruto maduro e aí a brisa, a areia e a água salgada, o verde e o cinzento, o céu que não é azul e as estrelas assombrosamente humanas, as memórias e as relações... tudo! Aí tudo será eterno. Para sempre!

Olho satisfeita pela janela. Encontrei o meu caminho. Descobri o meu tesouro nas profundezas do meu ser e dei-lhe vida. Maravilhada pela minha novidade, banhada pelo calor de um pôr do sol incandescente, sinto-me pronta a germinar. O comboio abranda e a floresta assiste à explosão do meu rebento. Olho desconfiada para os frutos que me querem como eles. O que é efémero muda depressa; ainda que fruto maduro, a voz da minha semente será mais alta. Porque eu sou jovem e assim serei, para sempre!

Arquivo de notícias

Clipping

ver mais

Em Agenda ver mais