3º Prémio

Ser jovem é ser mais alto

PATRÍCIA RODRIGUES

Deitada no chão de uma casa de banho pública com o cheiro nauseabundo de excrementos vejo nascer um novo dia, um sinal de esperança para a maioria mas não para mim certamente. A seringa continua encravada na veia e apesar de os meus olhos estarem vidrados consigo ver duas velhas a entrar e logo de seguida fugir enquanto gritam aterrorizadas. Penso que vou morrer, o que me assusta, sempre imaginei a morte como um anjo, um anjo terrível e implacável, mas de semblante bonito e sorriso ternurento... Não quero morrer, ainda não chegou a minha hora, sou tão jovem, há tantos sonhos para concretizar... Pensa em vida... Pensa em vida - ordeno ao meu cérebro... A primeira imagem que me vem à mente é a da minha mãe, recordo-me que no início era orgulhosa, exibia-me como um troféu às suas amigas mesmo sabendo que eu detestava que o fizesse, gostava mesmo de mim mas também esperava muito de mim, tinha tantos planos para o meu futuro... futuro... Nos últimos tempos a sua imagem e postura mudaram um pouco, lembro-me das lágrimas a correr copiosamente pelo rosto abaixo e das olheiras e rugas sulcadas em torno dos olhos, que denotavam não envelhecimento mas sofrimento prematuro. Uma imagem da minha mãe vestida de negro passa-me pela mente: também usa uma daquelas redes pretas que tapam o rosto e chora compulsivamente. É o meu funeral e eu encontro-me presa e fechada no caixão com falta de ar... Continua a pensar em vida... Sinto o meu corpo enrijecer, o que me recorda a perna partida aos seis anos, foi há tanto tempo... Penso na minha vida antiga, no meu antigo eu, tão distante... o meu cabelo era longo e encaracolado, os dias eram passados na escola e em casa a estudar, tinha também o clube de piano, ballet e poesia, que saudades... Sinto as lágrimas molharem a minha cara, ouço o choro do vento que chicoteia os vidros e o martelar da chuva... Sim, foi num dia de chuva como este que decidi mudar radicalmente, cortei as tranças e pintei o cabelo, passei a sair com o pessoal das motas, as reuniões no sótão, as drogas leves que nos faziam rir, as drogas pesadas que nos faziam sentir superiores e desligados do resto do mundo, um pesadelo a uma velocidade estonteante, a minha autodestruição... e tudo porque um dia explodi. Começou devido à monotonia da minha vida, queria algo que me desse alento, queria acender a chama da adrenalina e da aventura, queria experimentar viver a minha vida, fazer algo louco e selvagem, aproveitar cada dia ao máximo - Carpe Diem. Estava também farta de ser incompreendida e o medo de desiludir a minha mãe, de não corresponder às suas expectativas impedia-me de agir livremente, sufocava-me e perseguia-me. O sentimento de revolta começou a crescer, todos os dias era alimentado e, num dia chuvoso rebentou...

Está tudo enevoado, tenho medo e não há ninguém por perto para me confortar, não quero morrer numa casa de banho pestilenta, não quero morrer sozinha. Acho que apesar de ter dezassete anos nunca cresci realmente, tento acompanhar um mundo que se move a mil à hora, um mundo que não espera até eu estar adaptada, um mundo que não me compreende e me faz cair e chorar... só queria uma segunda oportunidade... A vida é feita de vitórias e derrotas, como alguém disse e eu não quero ser vencida pela morte.

Momentos como o primeiro beijo e a perda da virgindade passam rapidamente pela minha memória. Recordo-os com nostalgia..., penso em Deus, não sei se me ouve, não sei onde está mas penso nele... Peço-lhe uma segunda oportunidade, peço-lhe que puxe atrás o tempo..., questiono-me se realmente haverá céu. E se não houver? Para onde partimos quando o corpo desfalece? Talvez para o vazio, para o escuro, para o grande nada...

Penso na universidade e em todos os romances que ficam por escrever e viver, sou tão jovem, um mundo inteiro para revolucionar e melhorar, esqueço o passado e imagino o futuro... viajar, conhecer, experimentar...

Ouço vozes, aproximam-se rapidamente mas, antes de fazerem o que quer que seja tenho uma advertência: deixem-me passar, pois eu não sou como vós, apesar de não ser poeta e de não aspirar ao impossível sou jovem e ser jovem é ser mais alto, é ser soldado na batalha da vida...



Arquivo de notícias

Clipping

ver mais

Em Agenda ver mais