Medir o serviço público de televisão
Luís Queirós, Director Geral da Marktest

Agora que a questão do serviço público de televisão voltou a ser falada na sequência da divulgação do documento da comissão nomeada pelo Governo (depois de adormecida durante vários meses nos meios de Comunicação Social, talvez porque afinal ela não terá sido a questão essencial que motivou a agitação à sua volta!), parece oportuno revisitar o tema.

Julgamos que o importante é centrar a discussão no valor essencial, sua única, mas suficiente razão de ser, que esse serviço público assume para a sociedade: para que serve, o que vale, como se determina esse valor. De facto tem-se falado muito em definição de serviço público de televisão (SPT) mas pouco (ou nada) sobre a forma de o medir. Ora, nas ciências exactas, a definição de grandezas ou variáveis está intimamente ligada à possibilidade de as medir. O comprimento, o tempo, a intensidade da corrente eléctrica ou a temperatura, para citar exemplos simples e comuns, são grandezas que podem ser medidas e por isso mesmo podem perfeitamente ser definidas.

O mesmo se passa nas ciências sociais, como a Sociologia, a Psicologia ou a Antropologia, cujo grande impulso nasce, precisamente, da introdução de conceitos que podem ser traduzidos por grandezas mensuráveis (por exemplo, a atenção e a inteligência) e como tal objectivas e operacionais, embora o objecto destas ciências não se esgote neste âmbito.

Cabe então perguntar se o conceito de SPT pode ser ou não reduzido a uma grandeza mensurável e, se a resposta for positiva, haverá que encontrar a forma de o fazer.

Não se poderá, contudo, pretender reduzir o SPT a uma simples variável unidimensional, mas haverá que fazer um esforço para identificar as diferentes dimensões dessa variável. Se for necessário, haverá que hierarquizá-las, eventualmente projectá-las numa única componente ou resultante unidimensional, através de uma combinação das diferentes dimensões afectadas de um factor de ponderação próprio. Poderemos dessa forma simplificar a questão da definição do SPT e, acima de tudo, estabelecer uma forma de o medir.

Recentemente, num congresso realizado na Grécia, foi apresentado o caso do SPT Norueguês por Sissel Lund, da televisão NRK, num trabalho intitulado “Serviço Público de Televisão e a forma de o medir”, que sugeria algumas dimensões para o SPT e que transcrevo com ligeiras adaptações:

  • Ser acessível por todos;
  • Promover os direitos humanos;
  • Promover a democracia;
  • Ter diversidade;
  • Apoiar a cultura e a língua nacionais;
  • Ser credível;
  • Ter qualidade;
  • Promover os conhecimentos das pessoas;
  • Apoiar minorias sociais;
  • Promover a preservação do meio ambiente;
  • Ser independente do poder governamental
  • Informar com rigor e isenção.

Estas variáveis são conceptualmente muito diferentes umas das outras mas todas elas poderão ser quantificadas, embora de forma diferenciada. A acessibilidade e a diversidade podem ser medidas por indicadores objectivos computados pelo alcance e audiência das emissões e pela composição da programação, dados esses que actualmente já se disponibilizam nos estudos de audimetria.

Existem outras vertentes ligadas à programação e que também são quantificáveis. Para isso, cada programa deverá ser classificado por uma entidade independente - por exemplo numa escala de 0 a 100 - relativamente ao seu contributo para:

a) Cultura nacional;
b) Direitos humanos;
c) Democracia;
d) Língua nacional;
e) Conhecimentos gerais;
f) Interesses de minorias;
g) Preservação do meio ambiente;
h) Rigor e isenção da informação.

Um papel fundamental ficaria reservado aos telespectadores que se pronunciariam, através de uma sondagem representativa e realizada por entidade independente, relativamente à imagem corporativa da organização responsável pelo SPT, nas vertentes:

a) Credibilidade;
b) Qualidade;
c) Agrado;
d) Interesse;
e) Independência/Imparcialidade;
f) Horário dos programas.

Estas classificações seriam fundidas num índice único que resultasse de uma média simples ou ponderada por critérios de importância ou duração de cada programa. Este índice avaliaria o SPT na óptica da oferta. Seria criado um segundo índice resultado da ponderação do primeiro em função da audiência e que seria a avaliação do serviço público na óptica da procura.

Entendo que estas dimensões ou critérios de avaliação, aqui indicados com exemplos, deverão ser melhor ajustadas ao caso português, eventualmente eliminando alguns parâmetros ou introduzindo outros.

A recente divulgação da avaliação das Escolas pode servir de exemplo para a implementação de uma classificação do serviço público de televisão. Só medindo é que se pode dizer se uma coisa melhora ou piora; só medindo se pode premiar quem ganha ou criticar quem perde.

Os Gregos inventaram a Geometria que permitiu medir o mundo; sem isso o tempo seria ainda avaliado pelos conceitos de princípio, fim e eternidade; sem isso, não teria havido Galileu e, possivelmente, a Terra ainda ocuparia o centro do Universo.

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