As sondagens de opinião

Grupo Marktest,  14 fevereiro 2006

Luís Queirós,
Presidente do Grupo Marktest
Texto publicado no Diário de Notícias de 13 de Fevereiro de 2006:

No rescaldo da campanha para eleger o Presidente da República, agora que já está acalmada a euforia das vitórias e digerido o travo das derrotas, entrados já no período de defeso da caça ao voto, vale a pena voltar a falar de sondagens. Nos próximos três anos, se tudo se processar dentro dos prazos, não haverá eleições e pouco se falará, pois, de sondagens, pelo menos daquela forma acalorada com que se fala no fulgor das campanhas. Aproveitemos para revisitar desapaixonadamente o tema.

Esta campanha para eleição do PR, mais do que as anteriores, foi pródiga em sondagens; um ex-candidato referia que tinham sido publicadas 39, e não contou, claro, com as realizadas para uso interno dos serviços dos candidatos.

Em particular, as sondagens realizadas diariamente ao longo da campanha pela Marktest para o DN e a TSF foram um facto novo e tiveram um eco que ultrapassou em muito os meios que as divulgaram. Os candidatos evocaram-nas por boas e más razões; nos blogues foram feitas inúmeras referências; foi destacada a inovação e até houve quem profetizasse que a partir de agora nada iria ser como dantes no relacionamento dos órgãos de informação com as empresas de sondagens. Dois factores terão contribuído para este sucesso: o facto de as sondagens serem diárias, o que estimulou a curiosidade em acompanhar a evolução das inclinações dos eleitores, e a opção de divulgar de forma exaustiva a ficha técnica muito para além do que é costume e exigido pela lei.

Mas não deixa de ser pelo menos estranho que, passada a eleição, pouco ou nada se diga sobre as sondagens, nomeadamente sobre a influência que terão tido sobre os eleitores. Ainda assim, um semanário, acossado por suspeitas invocadas por Manuel Alegre, sentiu a necessidade de convidar o responsável de uma empresa de sondagens a dar uma explicação sobre o que terá sido uma previsão menos correcta das posições dos dois candidatos da área socialista.

O que aprendemos nesta última campanha?

Sabe-se mais e discute-se mais sobre sondagens; esse fenómeno novo que são os blogues permite fazer circular rapidamente a informação, produz feed-back sobre os resultados publicados e condiciona, em tempo real, os próprios produtores da informação e os jornalistas. As sondagens diárias da Marktest para o DN e a TSF, logo baptizadas de Tracking Polls, à moda americana, criticadas ou aplaudidas, ampliaram grandemente o interesse pelo tema. Elas vieram mostrar de uma forma dinâmica as movimentações do eleitorado, revelaram tendências e permitiram detectar fenómenos que doutro modo apenas seriam suspeitados.

Os resultados eleitorais foram o corolário do trabalho realizado. Se eles forem acrescentados ao gráfico evolutivo diário, como se da derradeira sondagem se tratasse, mostram com evidência a lógica e a validade das tendências. Felizmente que isso retirou argumentos aos que se preparariam para crucificar o método e os promotores das sondagens. Ainda assim, alguns vêm agora dizer que Cavaco e Louçã foram sobrestimados e Jerónimo foi subestimado; em vez de criticar as sondagens, deveriam procurar as razões para que os entrevistados se tenham pronunciado desta maneira.

Uma conclusão importante e muito significativa desta sondagem foi a de que os eleitores a meio da campanha passaram a destacar Alegre no segundo lugar e a acreditar que seria ele o melhor colocado para passar à segunda volta. Ora isto era o que as sondagens diziam e que os órgãos de comunicação, em parte baseados nelas, propalavam. Até que ponto as sondagens, sobretudo estas diárias, lidas de forma dinâmica, influenciaram o eleitorado? Até que ponto os fenómenos expressos nestas sondagens, a queda progressiva de Cavaco e a ultrapassagem de Soares por Alegre, eles próprios, terão tido um efeito reflexivo sobre os eleitores?

Esta deveria ser a verdadeira questão a debater, mais que contabilizar diferenças de um ou dois pontos percentuais ou lançar suspeitas sobre quem faz as sondagens. A divulgação detalhada dos procedimentos, de que a Marktest deu um exemplo, constitui a maior garantia do rigor e de independência das empresas que realizam sondagens e terá de ser generalizada no futuro. Só dessa forma se poderão identificar eventuais explicações para desvios. O nosso papel tem de ser, tão-somente, o de recolher e divulgar, de forma transparente, as opiniões dos eleitores na forma certa e junto da amostra correcta.

Luis Queirós
Presidente do Grupo Marktest

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