O valor das sondagens

O valor das sondagens

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Num texto publicado no Diário Económico, Luís Queirós, Chairman do Grupo Marktest, reflecte sobre as sondagens políticas e os resultados do recente Barómetro Político Marktest.

Marktest Investimentos
8 junho 2010

Luís Queirós,
Chairman do Grupo Marktest
Os resultados do Barómetro da Marktest de Maio, para o Diário Económico e para a TSF, ao colocarem o PSD à beira da maioria absoluta, mostraram que algo mudou sobre a intenção de voto dos eleitores portugueses. Estes resultados são surpreendentes, e vêm criar uma ruptura com uma série que apresentava, desde há vários meses, uma supremacia eleitoral do Partido Socialista. Considero oportuno tecer algumas considerações metodológicas sobre a realização de sondagens, e, nomeadamente, esclarecer a metodologia subjacente ao Barómetro. E faço isto para que não se caia na fácil tentação de criticar o mensageiro quando a notícia é menos boa.

A realização de sondagens fundamenta-se na teoria estatística da amostragem, sobejamente conhecida. O princípio é simples: uma amostra que é uma parte de um todo - O Universo - serve para o representar desde que os elementos que a compõem sejam extraídos desse todo de uma forma "aleatória". Diz-se, neste caso, que a amostra é representativa do Universo. Mas, na prática, assegurar a representatividade de uma amostra não é uma tarefa fácil.

São duas as formas mais correntes de seleccionar os elementos de uma amostra. A mais elegante e "científica" consiste em recrutar para a amostra um conjunto de elementos (eleitores, por exemplo) escolhidos completamente "ao acaso", ou de forma perfeitamente aleatória. Diz-se que o processo é aleatório, se todo e qualquer elemento do Universo tiver, à partida, a "mesma probabilidade de ser escolhido". Nas sondagens eleitorais isto nunca se faz, e a razão é simples: não é possível fazê-lo. O facto de haver eleitores que se recusam a responder a inquéritos de sondagens (e são muitos!) reduz a zero a probabilidade de eles serem inquiridos. E, infelizmente, há muitos outros factores que modificam, para mais ou para menos, a "seleccionabilidade" dos eleitores: ou por que não têm telefone (se o inquérito é telefónico), ou por que passam pouco tempo em casa (se o inquérito é pessoal, no domicílio), ou por que residem em zonas isoladas, ou por que existem barreiras ao contacto.

Para ultrapassar a dificuldade de recrutar aleatoriamente uma amostra, existe um outro método para garantir a representatividade (ou, pelos menos, assegurar uma boa aproximação), chamado amostragem "por quotas". Neste método, a amostra é "construída" para ter a mesma estrutura do Universo, isto é, do todo. Se eu sei que 51% dos eleitores são mulheres, então eu incluirei na minha amostra a mesma percentagem de mulheres, e faço da mesma forma para as idades, e para o "grau de instrução", etc. E vou mais longe, cruzando variáveis, de modo a criar "células". Posso, por exemplo, "obrigar" que a minha amostra tenha x% de "jovens, residentes no Porto, de instrução superior, pertencentes à classe média". E isto porque eu sei que existem exactamente x% de eleitores com aquelas características.

Construir uma amostra pelo sistema de quotas é um processo complexo e moroso, e obriga a contactar muitas pessoas, pois apenas são aceites as que preenchem o perfil exigido. E, à medida que a amostra se vai completando, a dificuldade acresce, pois ficamos com menos "graus de liberdade" na selecção. O derradeiro elemento da amostra poderá ser "um jovem, da classe alta, do Norte Interior", e podemos ter de realizar dezenas de telefonemas antes de o encontrar. Uma das grandes vantagens do método é que ele é independente da forma de contacto, isto é, telefónico ou domiciliário.

Uma vez "construída" uma amostra por quotas, é muito conveniente guardá-la para voltar a usá-la na inquirição seguinte. Poupa-se todo o trabalho de selecção, ganha-se tempo e dinheiro. Mas corre-se o risco de que inquirições sucessivas, "infectem" a amostra, e que se crie um efeito de aprendizagem (mais evidente quando as perguntas se repetem em cada vaga), ou até que as pessoas queiram ser simpáticas e dar opiniões " politicamente mais correctas". Nós chamamos a isso o sesgo ou enviesamento "de cortesia".

Construir uma amostra nova de cada vez ou recorrer a uma amostra já construída, é, pois, uma opção crítica que faz uma diferença substancial, que interfere nos resultados, e provoca grandes diferenças nos dados da ficha técnica, por exemplo, na chamada "taxa de recusa". No Barómetro da Marktest a amostra é construída de novo em cada inquirição mensal. Daí que para recrutar uma amostra de 800 elementos sejam necessários milhares de contactos telefónicos, e que se fale de taxas de "sucesso" na selecção de 10% ou 15%.

Já há muito que a Marktest publica uma minuciosa ficha técnica onde todos os procedimentos são apresentados de forma clara e detalhada. Optámos, de uma maneira ostensiva, por não "adoçar" a ficha metodológica. O Barómetro já se publica há quase 20 anos, e em momentos críticos de "viragem eleitoral" demonstrou ser a metodologia correcta. Veja-se o que aconteceu nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, em que o Barómetro da Marktest foi o único que antecipou os resultados.

A Marktest, que cumpre 30 anos neste mês de Junho, conquistou pela sua independência, pelo seu rigor e pela sua transparência, o direito a ser uma referência, no meio político, no meio jornalístico, no público em geral, e até no sector que produz as sondagens de opinião. E que faz jus ao seu slogan de sempre: "Informar com rigor para decidir melhor".

Luís Queirós
Chairman do Grupo Marktest

Texto publicado no Diário Económico de 5 de Junho de 2010

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